A World of Her Own
Joana Barrios deixa-nos espreitar pela fresta do seu mundo colorido: os rituais familiares e a casa, o teatro, a cozinha e a Moda. A atitude e o sentido de humor que tem a vestir-se, e que a tornou uma figura de referência em Lisboa, são transversais a todas as áreas da sua vida.
À conversa com a Stivali, mostra como a sensibilidade e um pastiche de (muitas) referências são o ponto de partida para um armário de sonho.


Conheço a Stivali desde… Na verdade para mim há dois desdes. Lembro-me da Stivali no Areeiro, por interpostas pessoas da família, de um outro tempo e espaço, quase de uma outra vida, mesmo!… E depois há a Stivali que conheço e começo a frequentar pelo meu próprio pé e um vínculo que se começa a criar em 2018, aquando do início do meu querido ARMÁRIO, quando passei a ser uma espécie de Stivalette, uma vez que o styling da série provinha quase exclusivamente daqui via Filipe Carriço e mais tarde David Motta.
Aqui encontro sempre… Tudo o que me faz falta, mas sobretudo aquilo de que eu nem sabia que precisava como de pão para a boca. LOL.
Um objeto-de-desejo neste momento… Umas calças pretas, em pele. Uma jaqueta também preta, em pele.
A melhor compra até hoje? O meu barómetro de melhor compra é sempre a taxa de utilização. Nesse caso, sem dúvida umas dad sandals Chanel que todos os anos visitam o sapateiro para o próximo verão em que não me sairão dos pés.
Mas falta aqui uma pergunta, pelo menos para mim, que são os maiores arrependimentos de coisas que não comprei!… É que eu sou igualmente das peças que amei mas não trouxe… não sei bem porquê!… Nomeadamente uns sapatos cristalados René Cavoilla, umas sandálias Gianvito Rossi… *suspiros* e a lista continua!…
A peça mais especial no seu armário? Não sei se é a mais especial, mas é a que acho mais divertida e um dos meus melhores achados: uma carteira Chanel em plástico transparente e pele dourada, salvo erro de 2007. E umas sandálias também Chanel, que consegui em segunda mão, da coleção cruise de 2018, com saltos arquitetónicos, em colunas jónicas, porque sendo eu uma pessoa do Teatro da Cultura Clássica, dizem-me muito!…
Como se constrói um look quando o tempo é curto? Eu aposto sempre em peças que me façam sentir bem e confortável, com bons acessórios. Mas tudo depende, claro está, das ocasiões. Tenho um armário muito simples e objetivo, o que faz com que as escolhas sejam potencialmente fáceis e eficazes.
Como é que o estilo resiste ao tempo? Acho que o estilo resiste sempre ao tempo, acho que é muito pessoal e que não se pauta pela ideia unificada de gosto, porque gosto não é um critério. Já a moda…
Há marcas que acompanham fases da vida. Existe alguma que atravesse as suas? Por acaso não. Não ligo assim muito a marcas. Ligo muito mais aos materiais e aos cortes e às suas longevidades face ao uso. Mas acho que se tivesse de isolar, a minha marca mais usada e abusada é sem dúvida a Bottega Veneta.
O luxo que permanece é o que se vê ou o que se sente? O luxo é imaterial, apesar do consumo tentar provar o contrário. O luxo, em 2026 e mesmo antes, é muito mais sobre o que não se pode comprar. É tempo, é uma boa noite de sono, é uma excelente refeição em ótima companhia…
Que produto ou ritual de beleza está sempre presente? O meu ritual de beleza primordial é uma excelente noite de sono. E adoro escovar os dentes e ir ao dentista! A pele é muito importante, mas eu tento reduzir as rotinas a meio produto, quase, para ser tudo muito simples…
Para onde caminha a Moda? Sinto que há muitas variáveis em jogo hoje quando se fala de Moda. Sinto que a Moda está um pouco à procura do seu caminho e do seu lugar num mundo que convoca uma mudança constante e que se desenvolve a um ritmo frenético, com pouca capacidade para assimilar todos os novos estímulos que se lhe acrescentam. A Moda obedece hoje (pelo menos no meu entender) em primeiro lugar às exigências do mercado, aos objetivos comerciais, ao clickbait, ao desespero da fidelização de nova clientela, cada vez mais jovem, a toda uma nova quantidade de métricas digitais de relevância e monetização e muito menos àquilo que fez com que eu a adorasse primeiro: à expressão da individualidade nela possível, através dela possível e nela contida, à fantasia, às sensações, à Arte, ao detalhe… Vejo-a muito rápida a passar, muito baralhada, muito desnorteada, com pouca identidade… Mas não sei para onde vai…
Onde é que a indústria está a vencer? E a falhar? A indústria está a vencer na sua popularização absoluta de forma transversal a toda a cultura popular e a falhar redondamente na relação qualidade-preço, por exemplo.
Um projeto que a deixe particularmente orgulhosa… Acho que todos. Porque como não sei fazer nada pela metade, acabo sempre por me envolver a um nível muito profundo e de enormíssima intensidade, por isso… quer seja um espetáculo, um guarda-roupa ou um programa de televisão totalmente novo, eu mergulho até lá mesmo ao fundo!…


O que mais a desafia no trabalho? Padecer de uma certa ideia de perfeição…
O que aprendeu com uma experiência difícil? A ter paciência. Mas só consigo responder isto com alguma certeza ao dia de hoje porque a paciência tem sido a grande constante em todos os momentos complexos pelos que já passei.
A sua obsessão gastronómica atual… A loucura em torno do consumo de macronutrientes, como se tudo na alimentação tivesse de ser subordinado a uma ideia de funcionalidade unívoca e com objetivos de natureza estética ou produtiva.
Um prato que adore cozinhar… Lulas recheadas com puré de batata.
A quem deveríamos prestar atenção agora? Mais do que a alguém concretamente, acho que deveríamos prestar atenção àquilo que comemos. Deveríamos estar a não ceder a tudo o que parece muito fácil e vem mascarado de muito conveniente e nutritivo e saudável, às refeições já prontas, a tudo o que é ultraprocessado, a todas estas formas de nos alimentarmos que nos afastam da origem dos alimentos e de uma salubridade que se compromete a cada dia, cada vez mais.
O que podemos encontrar no seu frigorífico? Cerca de 40% do meu frigorífico são verdes e frutas. Há folhas com fartura, couves variadas e muita fruta. Há leite e iogurtes e queijo. Há sempre uma generosa caixa com sopa, alguns molhos e enchidos e coisas assim muito específicas e exóticas que recebo de amigos com interesses comuns, em troca de outras coisas também interessantes para eles. Há sempre caixinhas com sobras à espera de uma atualização de sistema para a refeição seguinte e um bom vinho branco, porque nunca se sabe.
Como começa a sua manhã? A minha manhã começa com um enorme copo de água à temperatura ambiente e uma chaleira a ferver água, porque enquanto trato das lancheiras das Crianças, entre as 6:30h e as 7:30h, faço o meu café, que bebo com leite no sossego muito sossegado da manhã antes de toda a gente acordar. Preparo os pequenos-almoços das Crianças e organizo tudo para que os dias não comecem numa correria. Nem sempre é possível, calma! Mas é bom quando conseguimos perceber que a manhã foi mais ou menos atribulada e porquê.
Uma rotina para manter a energia e o equilíbrio… Aquela coisa do café com leite é real. Eu só bebo café com leite em casa e é muito especificamente o que eu faço. É um hábito que me acompanha desde que me lembro de viver sozinha, portanto há uns… 24 anos. CREDO! O outro hábito que não dispenso é andar a pé para todo o lado.
Um ritual de família sempre presente… O pequeno-almoço e o jantar são refeições partilhadas à mesa para onde converge de tudo: das tarefas ao que foi bom e menos bom. Independentemente de tudo, partilha-se.
Qual a sua definição de wellness? Ter tempo para isto: beber o café numa paz qualquer, abraçar as minhas Crianças e rir com elas, andar a pé para os sítios, apreciar que a luz está bonita, que as flores brotaram das árvores… que posso ir dar um passeio com o meu melhor amigo… é acordar com vontade de acordar e reconhecer que tenho uma vida incrível e que estou muito grata por isso. É uma coisa muito abstrata, que se materializa assim, acho eu.
O que a inspira a criar? Se alguma coisa me desperta a atenção, então vou por aí fora e já nada me detém!…
Que conta nunca perde de vista? As inúmeras páginas de memes que sigo!…
Que tendência digital está a acompanhar? Nenhuma. Tenho opiniões fortíssimas acerca desse tema, até. Mas ficam para depois!…
Os seus essenciais de viagem… Apenas os meus cremes e as recomendações da dermatologista, porque tenho uma pele muito sensível e muito caprichosa, que em viagem sofre horrores e prega as maiores partidas.
Um destino gastronómico de sonho São todos, mas acho que um passeio dilatado por um conjunto de países da América Latina seria assim o pináculo.
Viagem de sonho com filhos Índia.


O date night perfeito… Um convite.
Nenhuma festa fica completa sem… Passar pelo menos dez dias a pensar no lookinho e nas formas de o concretizar e um negroni à minha espera à entrada.
Quais os locais preferidos em Lisboa? Tenho vários, mas clássicos são o Gambrinus e o Pap’Açorda mais o Kaffehaus, adoro O Velho Eurico, as sanduíches da Bibs, uma tarde de sábado na Musa de Marvila, o Barbela é surpreendente e muito divertido, para pequenos-almoços o Double Trouble… o arroz de limão e corvina do Corrupio…
Qual a sua maior extravagância? Ouvir música aos berros. Sempre.
Qual é o seu objeto mais precioso? O meu pombo JW Anderson.
Qual a sua ocupação favorita? Ler.
O que mais a diverte sem esforço? Passar um dia com o meu amigo André.
Um objetivo de vida… Viver sem ressentimento.
Qual a sua ideia de felicidade? As minhas Crianças em cima de mim. Um mantra para a vida? Ai, Filha, P’ra cima, Pra cima!


